Por Joaquim Ferreira
A evolução psicológica de Petruchio em "A Megera Domada" é complexa e pode ser analisada sob diferentes ângulos.
De início, ele surge como um personagem orgulhoso, manipulador e dominador, cujo, objetivo princial é "domar" Catarina para se casar e impor controle sobre ela. Ela faz uso de táticas como manipulação, privação de necessidades básicas como: comida e sono: isolamento social e alternância entre afeto e crueldade para enfraquecer a resistência emocional de Catarina e assegurar sua submissão. Essa estratégia revela um caráter narcisista e controlador. Para Zimmerman (2023) uma pessoa narcisista é aquele indivíduo que sofre de um problema de saúde mental caracterizado por um padrão generalizado de sensação de superioridade (grandiosidade), necessidade de ser admirado e falta de empatia. Petruchio enxerga o casamento como um exercício de poder, sem buscar parceria real.
No transcorrer da peça, a postura de Petruchio pode ser interpretada também como uma espécie de brincadeira para ensinar a Catarina uma lição, chegando a reproduzir comportamentos "megeras" para demonstrar como é desagradável o temperamento dela. Esse aspecto remete uma filosofia pessoal sobre o casamento, provavelmente indicando que Petruchio procura uma harmonia que se dá através da transformação mútua, ainda que por meios duros.
No entanto, o impacto psicológico de suas ações sobre Catarina é devastador, destruindo a autoestima dela e transformando-a numa figura submissa, que internaliza o papel imposto. Desta maneira, a evolução de Petruchio não é tanto de mudança interna visível, mas de implementação de uma dinâmica psicológica abusiva que reconfigura a identidade da esposa.
No final, a peça deixa ambígua a interpretação sobre se Petruchio realmente se transforma ou se ama Catarina, ou se tudo é parte de uma rigoroso controle e manipulação.
Algumas cenas nos mostram a evolução da personagem:
Cena da apresentação e cortejo inicial (Primeiro Ato, Cena 1): quando Petruchio chega para cortejar Catarina, ele surge com aspecto de arrogância, confiança exagerada e determinação em "domar" a esposa. Aqui ele já se mostra como um personagem controlador e manipulador;
Cena do casamento (Ato 3, Cena 2): nessa cena Petruchio age de forma dominante, recusando-se a seguir os desejos da noiva e impondo seu poder, por exemplo, chegando atrasado e insistindo no controle dos preparativos. Isso demonstra uma postura autoritária, marcando sua decisão de comandar o relacionamento;
Cena da casa de Petruchio após o casamento (Ato 4, Cena 1): Petruchio inicia o processo explícito de "domar" Catarina, privando de necessidades básicas, contradizendo todas as suas percepções da realidade (como dizendo que o dia está claro quando está escuro). Essas ações mostram seus esforço para quebrar a resistência dela e estabelecer a submissão;
Cena de rendição final de Catarina (Ato 5, Cena 2): Quando Catarina faz seu famoso discurso de obediência e respeito, Petruchio muda a pose de domínio para uma aparente satisfação e cumplicidade. É uma cena crucial porque evidencia a conclusão do "domínio" psicológico que ele procurava impor, revelando uma face mais harmoniosa, ainda que ambígua, de seu comportamento.
Com isso podemos dizer que estas cenas são importantes para nos trazer que Petruchio não só mantém sua posição de autoridade, mas também vai moldando gradativamente a relação conforme seus objetivos vão sendo alcançados, utilizando-se de diversos artifícios comportamentais conforme o contexto da peça.
Video de Joaquim Ferreira: Referencias:
https://www.msdmanuals.com/pt/casa/distúrbios-de-saúde-mental/transtornos-de-personalidade/transtorno-de-personalidade-narcisista
Shakespeare, William. A Megera Domada. BEAUVOIR, Simone de. O Segundo Sexo. SAFFIOTI, Heleieth. Gênero, patriarcado e violência.
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