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Violência psicológica em "A Megera Domada" e sua adaptação na novela brasileira "O Cravo e a Rosa".


Por Talita Ferreira


O presente trabalho tem como objetivo analisar a violência psicológica presente na peça A Megera Domada, de William Shakespeare, e mostrar como essa mesma ideia aparece de maneira adaptada na novela brasileira O Cravo e a Rosa. Mesmo sendo obras de épocas e formatos diferentes, ambas retratam o relacionamento conturbado entre uma mulher considerada “difícil” e um homem que tenta controlar seu comportamento. Essa relação é marcada por atitudes de manipulação, humilhação e controle emocional, que hoje são reconhecidas como formas de violência psicológica.





Na peça de Shakespeare, escrita no século XVI, Catarina é vista pela sociedade como uma mulher rebelde, que não se encaixa nos padrões de docilidade e obediência esperados das mulheres da época. Por isso, ela recebe o rótulo de “megera”. Petrúquio, um homem interessado principalmente no dote, casa-se com Catarina e cria estratégias para “domá-la”. Essas estratégias envolvem privar Catarina de comida e sono, isolá-la da família, ridicularizá-la e inverter situações para fazer com que ela pareça sempre errada. Petrúquio diz que faz tudo “por amor”, mas, na verdade, essas atitudes são claramente abusivas. Ele usa o poder emocional e psicológico para enfraquecer Catarina e controlar seus pensamentos e comportamentos. Hoje, esse tipo de atitude é chamado de violência psicológica, algo que machuca a mente e a autoestima, mesmo sem deixar marcas visíveis.




A novela O Cravo e a Rosa, escrita por Walcyr Carrasco e exibida pela Rede Globo, é inspirada diretamente nessa obra de Shakespeare. Na versão brasileira, os personagens Petruchio e Catarina voltam como Petruchio e Catarina, repetindo a dinâmica de confronto entre um homem rígido e uma mulher independente. Entretanto, por ser uma obra moderna e transmitida na televisão aberta, a novela adapta a história para um tom mais leve, cômico e romântico. Mesmo assim, algumas cenas fazem referência direta ao comportamento de controle emocional mostrado na peça original, como quando Petruchio impede Catarina de comer ou sabota a comida, ou quando ele exige que ela se comporte de determinada forma dentro da casa. Essas cenas relembram, de maneira suavizada, a manipulação psicológica presente na obra de Shakespeare.

Enquanto na peça original a violência psicológica aparece de forma mais explícita e pesada, na novela ela é suavizada e muitas vezes transformada em humor. No entanto, ao olhar com atenção, percebemos que ainda existem elementos de controle, imposição e tentativa de moldar o comportamento feminino. A novela tenta equilibrar isso com cenas de carinho e reconciliação, buscando agradar o público e transformar o conflito em romance. Mas, mesmo com esse tom mais leve, ainda é possível identificar traços de uma relação desigual, onde a mulher precisa ceder ou se adaptar para que a convivência funcione.

Ao comparar as duas obras, percebemos que tanto a peça quanto a novela refletem como a sociedade vê e trata mulheres que fogem do padrão esperado. Catarina é chamada de “megera” por ser sincera, forte e por não aceitar se calar. Essa crítica permanece atual, pois ainda hoje muitas mulheres são taxadas de exageradas, bravas ou difíceis quando expressam suas opiniões ou não aceitam comportamentos machistas. A violência psicológica, seja em Shakespeare ou na televisão moderna, aparece como uma forma de tentar silenciar essas mulheres e colocar seus comportamentos dentro de uma caixa que agrada aos homens ou à sociedade.




Em conclusão, tanto A Megera Domada quanto O Cravo e a Rosa ajudam a discutir o papel da mulher na sociedade e como o controle emocional pode ser disfarçado de humor, cuidado ou romance. Mesmo que a novela seja mais leve e adaptada ao público atual, ela mantém elementos importantes da obra de Shakespeare, mostrando como certos comportamentos machistas atravessam séculos. Ao analisar essas obras, entendemos como a violência psicológica pode ser sutil, mas ainda assim muito presente em relações amorosas, e percebemos a importância de reconhecer e combater essas atitudes para construir relações mais saudáveis e igualitárias.
Link para o meu video falando sobre a temática: Referência: SHakespeare, William. A Megera Domada.
BEAUVOIR, Simone de. O Segundo Sexo. SAFFIOTI, Heleieth. Gênero, 
patriarcado e violência.

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