Por Talita Ferreira
O presente trabalho tem como objetivo analisar a violência psicológica presente na peça A Megera Domada, de William Shakespeare, e mostrar como essa mesma ideia aparece de maneira adaptada na novela brasileira O Cravo e a Rosa. Mesmo sendo obras de épocas e formatos diferentes, ambas retratam o relacionamento conturbado entre uma mulher considerada “difícil” e um homem que tenta controlar seu comportamento. Essa relação é marcada por atitudes de manipulação, humilhação e controle emocional, que hoje são reconhecidas como formas de violência psicológica.
A novela O Cravo e a Rosa, escrita por Walcyr Carrasco e exibida pela Rede Globo, é inspirada diretamente nessa obra de Shakespeare. Na versão brasileira, os personagens Petruchio e Catarina voltam como Petruchio e Catarina, repetindo a dinâmica de confronto entre um homem rígido e uma mulher independente. Entretanto, por ser uma obra moderna e transmitida na televisão aberta, a novela adapta a história para um tom mais leve, cômico e romântico. Mesmo assim, algumas cenas fazem referência direta ao comportamento de controle emocional mostrado na peça original, como quando Petruchio impede Catarina de comer ou sabota a comida, ou quando ele exige que ela se comporte de determinada forma dentro da casa. Essas cenas relembram, de maneira suavizada, a manipulação psicológica presente na obra de Shakespeare.
Enquanto na peça original a violência psicológica aparece de forma mais explícita e pesada, na novela ela é suavizada e muitas vezes transformada em humor. No entanto, ao olhar com atenção, percebemos que ainda existem elementos de controle, imposição e tentativa de moldar o comportamento feminino. A novela tenta equilibrar isso com cenas de carinho e reconciliação, buscando agradar o público e transformar o conflito em romance. Mas, mesmo com esse tom mais leve, ainda é possível identificar traços de uma relação desigual, onde a mulher precisa ceder ou se adaptar para que a convivência funcione.
Ao comparar as duas obras, percebemos que tanto a peça quanto a novela refletem como a sociedade vê e trata mulheres que fogem do padrão esperado. Catarina é chamada de “megera” por ser sincera, forte e por não aceitar se calar. Essa crítica permanece atual, pois ainda hoje muitas mulheres são taxadas de exageradas, bravas ou difíceis quando expressam suas opiniões ou não aceitam comportamentos machistas. A violência psicológica, seja em Shakespeare ou na televisão moderna, aparece como uma forma de tentar silenciar essas mulheres e colocar seus comportamentos dentro de uma caixa que agrada aos homens ou à sociedade.
Em conclusão, tanto A Megera Domada quanto O Cravo e a Rosa ajudam a discutir o papel da mulher na sociedade e como o controle emocional pode ser disfarçado de humor, cuidado ou romance. Mesmo que a novela seja mais leve e adaptada ao público atual, ela mantém elementos importantes da obra de Shakespeare, mostrando como certos comportamentos machistas atravessam séculos. Ao analisar essas obras, entendemos como a violência psicológica pode ser sutil, mas ainda assim muito presente em relações amorosas, e percebemos a importância de reconhecer e combater essas atitudes para construir relações mais saudáveis e igualitárias.
Link para o meu video falando sobre a temática:
Referência: SHakespeare, William. A Megera Domada.
BEAUVOIR, Simone de. O Segundo Sexo. SAFFIOTI, Heleieth. Gênero,
patriarcado e violência.


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